tenho um segredo para contar
(em algum lugar do ano passado…)
Tenho um segredo para contar. Talvez o contasse antes de começar estas linhas, se ao menos você pudesse encarar meus olhos: mas tudo bem. Um segredo não se conta e não será aqui que o revelarei. O ponto não é este: o segredo em si. O fato de haver algo em minha própria solidão, inalando compulsões solitárias. Não é o meu silêncio, nem a minha voz. O porquê está erroneamente no fato de algo ser segredo, hoje, para mim. Uma palavra forte que não se discute em uma mesa de bar, mas revela-se em uma. Não se guarda debaixo de um banco da praça, mas encontra-o lá. Não se brinca num parque de diversões, mas pode morrer atrás de uma roda-gigante. Não se escuta jazz com um segredo, mas fabrica-se um enquanto o saxofone estoura. Uma coleção de negações que, incrivelmente, não nos levará a nada: e está ali. Na nossa frente, sorrindo por nos colocar diante de um muro; o nosso segredo.
Depois de uma, duas, ou três doses de martini, não me lembro, não faço questão – é sério! –, o que quero, mesmo, é entender. A revelação de um segredo. De uma chave própria, solitária e evasiva. Escapa-se dos dedos quanto mais apertamos; no ato de glória, de revelação, para um querido, para um inimigo, não importa. O segredo não é mais seu, não é mais… segredo.
Tenho amigos. Tenho discussões e vontades. Tenho noites mal dormidas e sexos casuais – e se não o tivesse também, seria o mesmo: conheço-me. Se não soubesse contar até dez, talvez não me preocupasse em conseguir fazer contas com vírgulas. Se não soubesse conjugar um verbo, talvez não escrevesse sobre eles. Se não tivesse o fácil, obviamente, não procuraria o difícil. Minha dificuldade é fuga da minha própria existência: sofro destemidas vontades de sobreviver no meio desse tumulto de gente, de vidas e carências. Mas sou único: e tenho um segredo. Eles sabem que não estou bem, mas quem está? Eles sabem que corro atrás da minha própria solidão, e que sorrio quando me divulgo num outdoor. Conhecem meus fracassos, compreendem meus erros e exploram minhas felicidades. Entendem por que eu não fumo e por que eu bebo. Mostram-me motivos para rir. Motivos para chorar e andar. Ouvir músicas – eles que apresentaram. Deram-me papel, caneta e falaram: escreva. Consegui respirar ali, depois do ponto final, perto de um verbo. Apalpei-me diante de um espelho e escrevi de forma bêbada um: não estou bem. Depois, bem depois, risquei o não. Mas ele continua ali, agora com um borrão.
E o segredo é este: viver. Mas o segredo em si, ah, este eu não conto. Não conto mesmo, se contasse, o que seria dele? Um segredo revelado já se torna história. E história, fato ou não, deixa de ser segredo. E o meu sucesso está dentro dele: do segredo. Serei bem sucedido se mantê-lo comigo: óbvio.
Uma mesa de bar, com mentiras, verdades, martinis, absintos e um pouco de vinho, seria o meu segredo. E todos têm acesso a ele. Meus fracassos sentados à mesa, minhas vitórias indo ao banheiro e eu ali: assistindo. Quantos segredos existem em nossa vida? Quantos acessos a eles temos? Depois de um jogo de sinuca e duas bolas devidamente postas no buraco, um segredo vem à tona: e, maravilhosamente, continuamos ali, vivos. E quanto amores em segredo temos? E amores que não são segredos? E segredos que são amores?
O amor é um segredo. E segredo maior é sustentar um. Paixão é segredo inútil. Desejo é anti-segredo. É simplesmente. Na verdade, é o não ser. Não é. Segredo é mais: é sofrer por querer mais. É silenciar-se. É amor. Amar que dói. E amor, que é amor, é segredo. Amor, se não dá, deu. E passado de amor é dor. Um segredo.
Ontem, bebi com uns amigos numa mesa de bar. O bar era conhecido: nenhum segredo. A mesa, um pequeno detalhe estúpido, era normal: nenhum segredo a acrescentar. Mas nós, os amigos, éramos todos segredos. Amigos que não se conheciam. Quem mais convive conosco – não conhecemos. Até que ponto eles vão? Até que ponto eu vou? Até que ponto eles acham que eu vou? Segredo, segredo e mais um segredo. Segredos no meio de nós – se não atrapalhassem a boa convivência, com certeza, brotariam cerejas em nossos pés.
Mas a convivência é um segredo. E o segredo da boa convivência é outro. Não é assim que funciona o sistema social, e nem assim será. Nunca. Algumas coisas contamos para determinada pessoa, outras coisas para outra determinada pessoa. Mas nunca para todos: infelizmente não somos vitrines. Infelizmente? Não, felizmente. Ou não também, é tudo uma questão de saber lidar com o segredo.
Nem eu mais entendo quem sabe o quê. Eu mesmo não sei. Não consigo administrar mais as minhas verdades. São tantas e são tantas as pessoas que têm acesso a elas. Na sexta eu era um, minhas conversas eram uma, meus segredos eram um. No sábado eu era outro. Quem me acompanhou – acompanhou meu progresso; quem não o fez, perdeu-se no meu passado. Parou nas horas que não vou reviver. Daqueles meus segredos e desses, quais são os meus amigos, meus reais queridos, que compreenderão minhas escadas, meus degraus e meus buracos?
O segredo é ser. E ser é um segredo. Querer é outro, mas ter; ter não é. Uma confusão de intenções, uma confusão de tudo que é mais confuso no seu próprio silêncio!
Ontem, meu segredo era um só: esconder-me. Esconder meu segredo da mesa. Encontrei-me com o passado, o presente e o futuro; acabei encostando-me num telefone sem fio com o meu próprio desejo – em segredo.
E nas minhas próprias divagações terminei a noite com dúvidas secretas, coisas roubadas e amigos perdidos. E no próprio segredo: o que era, hoje não é mais. O que amanhã será, hoje – por favor, seja.
Não quero mais oscilar em segredo, sou humano. Também amo e também odeio. Também me apaixono e também invento. Também – você também. Não espero mais e-mails, nem telefonemas. Espero só olhares. Se ainda quiser me encontrar, marque um café; comemos um brownie, ou vamos passear pela praça. Mas me veja, seja por dois minutos, ou a tarde inteira.
É esse o segredo: tocar o próprio segredo e torná-lo, por dois minutos, a sua realidade.
